Quero Sentir-me Incluído: A Ferida Invisível de Não Pertencer
E se a maior ferida não viesse daquilo que nos aconteceu, mas daquilo que nos faltou? Crescer numa família e não sentir que se pertence a ela deixa marcas invisíveis, mas profundas. É como estar presente e, ainda assim, nunca ser verdadeiramente visto. É desejar ser acolhido, mas sentir-se sempre do lado de fora de algo que deveria ser casa. É sentir que o amor nunca chegou até nós e perceber que, quando o tentamos dar, raramente é reconhecido como tal. O tempo passa, e pouco a pouco deixamos de conseguir dar… e, por vezes, até de receber.
Quando uma criança ou jovem não se sente incluído, carrega dentro de si uma dor silenciosa: a ausência de um lugar seguro onde pudesse simplesmente existir. Essa ferida não desaparece com a idade. Pelo contrário, transforma-se num vazio persistente que acompanha o adulto na forma de insegurança, medo de rejeição ou dificuldade em confiar. Muitas vezes, sem perceber porquê, esse adulto não se sente visto na relação amorosa, no grupo de amigos, no trabalho — porque a ferida da exclusão infantil continua a viver dentro de si.
É uma dor que não grita, mas que condiciona. Uma ferida aberta que permanece e que, nas entrelinhas, sussurra:
"Se não fui suficiente para ser aceite pela minha própria família, serei suficiente em algum lugar?"
Ultrapassar esta dor não é simples, mas é possível. Exige coragem emocional e disponibilidade interna. Implica reconhecer a ferida, dar-lhe espaço, nome e voz. Implica compreender que o facto de não ter sido incluído não define quem somos. Não define o nosso valor. Não define o nosso futuro. Pertencer não é apenas nascer numa família; é ser reconhecido, acolhido e aceite tal como se é. E, se isso não aconteceu no passado, pode ser construído no presente — em novas relações, em novos laços e, sobretudo, na relação que estabelecemos connosco.
Aprender a incluir-nos a nós próprios é talvez o processo mais profundo de cura: oferecer-nos o cuidado que não recebemos, validar emoções que foram ignoradas, construir dentro de nós um espaço onde possamos existir sem medo.
É um caminho que se faz devagar, mas é um caminho possível.
A pergunta que fica é uma chave terapêutica:
como podemos criar dentro de nós o espaço que nunca nos foi dado em criança?
Como construir, na vida adulta, o lar afectivo que não tivemos fora?
A inclusão que procuramos no mundo começa dentro de nós.
E cuidar de nós — verdadeiramente — é um acto de coragem e de resgate interior.
